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1/03/2018 | Assessoria de imprensa

Feminismo: Uma palavra para 2018

Feminismo: Uma palavra para 2018

Eleito, de acordo com pesquisa norte-americana, o “termo de 2017”, feminismo deve ser discutido com intensidade ao longo deste ano. Redes sociais e eleições são apontados por especialistas como razões para que o vocábulo esteja em evidência

O dado é do final de 2017, mas a palavra, de acordo com especialistas, deve continuar em evidência nos próximos meses. Segundo levantamento anual realizado pelo dicionário norte-americano Merriam-Webster, “feminismo” foi o termo mais buscado na plataforma online da publicação durante o ano passado – no site, a procura pelo vocábulo chegou a ser 70% superior que o interesse por ele em 2016. Para a Merriam-Webster, acontecimentos como “Marcha das Mulheres” pós-eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e produções cinematográficas a exemplo de “Mulher Maravilha” contribuíram para esse cenário.

Há quem acredite que o interesse pela palavra, que no Brasil também é crescente, tem tudo para manter-se em alta em 2018, entre outras razões, pelo fato de ser este um ano eleitoral,no qual pautas sociais, sobretudo as progressistas, são trazidas com mais força às discussões. “Estamos vivendo a Primavera das Mulheres e que bate de frente com pautas conservadoras. O mundo das redes sociais deu fôlego a esse momento, pois, com elas, houve uma renovação”, opina Monalisa Soares, 32, professora de sociologia da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e integrante do Laboratório de Estudos em Política, Eleições e Mídias (Letem) da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Pensamento semelhante é o de Carla Vitória, 26, militante da Marcha Mundial das Mulheres. A advogada prevê, no entanto, que também haverá um crescimento de reações contrárias ao feminismo. Integrante da Sempreviva Organização Feminista, com sede em São Paulo, Carla acrescenta que o feminismo tem popularizado-se nos últimos anos, sobretudo em meio à juventude, por conta das redes sociais. “A juventude tem acesso a várias ideias que o feminismo propõe. Há, contudo, outro lado, que é o da mídia incorporando o feminismo como instrumento do mercado. O feminismo é uma luta por igualdade. Quando falamos de feminismo, falamos de uma transformação no conjunto da vida das mulheres e não somente em alcançar condições de poder. Queremos uma transformação estrutural.” No início deste ano, artigo publicado no jornal Le Monde e assinado por 100 personalidades da cultura francesa – entre elas a atriz Catherine Devenue e a escritora Catherine Millet – criticou o movimento #metoo (#eu também, em português), criado em 2017 para estimular que mulheres falassem, por meio de postagens em redes sociais, sobre situações de assédios sexuais. No texto, as signatárias, que posteriormente se retrataram, defenderam a ideia de que, em geral, havia “uma face de ódio aos homens e à sua sexualidade”.

“Nós defendemos a liberdade de importunar, indispensável à liberdade sexual”, diz o título do documento. Este é um dos exemplos em que pensamentos divergentes da causa são trazidos à tona. Monalisa explica que existem pontos de conflito entre militantes feministas e que, em razão disso, falar em feminismo é falar em pluralidade de sentido. “O feminismo não pode ser uno porque as trajetórias das mulheres que se engajam são diversas. A condição hierárquica nos impõe uma experiência comum, mas é natural que haja uma clivagem de gênero e divisões transpassadas por outras experiências. A carta de Catherine Devenue e o videoclipe da Anitta mostram que existem clivagens”, opina.

Sobre o movimento #metoo, Carla observa que ele é de grande valia para a causa, mas que existe uma parcela de mulheres que não são contempladas com ações desse estilo. “Vivemos dentro de um sistema patriarcal que educa homens para serem machistas e mulheres para aceitarem as situações de assédio. É muito importante que as mulheres falem de casos de assédio que sofreram, mas e aquelas que precisam e não podem falar? Que não podem expor, por exemplo, seus patrões? Estamos em uma cultura de superexposição dos assediadores, porém se esquecendo do mais importante: o apoio às mulheres que foram hostilizadas.” No Brasil, os movimentos feministas, desde o surgimento, procuraram fortalecer-se entre eles, pondera Monalisa. A docente destaca que houve um momento em que o feminismo foi muito caracterizado pela classe média, o que impedia que muitas mulheres aproximassem-se do movimento, mas que a realidade atual é de fortalecimento graças aos diversos grupos que o compõem. “Esse conflito dá vivacidade ao movimento. Apresenta perspectivas. Esse desenvolvimento e essa agregação têm aprimorado no sentido de que mais e mais mulheres estão próximas. É preciso entender que as mulheres estão em muitos lugares de articulação e que se faz necessário criar cenários para que estejamos sempre dentro do debate, afastando as possibilidades de uma realidade em que as mulheres estejam à margem”, conta Monalisa.

O “papel do homem” no feminismo é também razão de divergência entre militantes. Carla argumenta que, como a desigualdade entre homens e mulheres não está apenas no plano do pensar, e sim é parte da estrutura da sociedade embasada em um modelo patriarcal, os homens são naturalmente vistos como superiores. “Entre as ações que os homens podem tomar para ajudar a luta feminista está o seu papel de contribuir como uma divisão de tarefas justa e adequada. Cuidar da casa, dos filhos, dos idosos, por exemplo, são algumas delas”, aponta.

Fonte: site do Jornal O Povo – Foto: AURÉLIO ALVES / ESPECIAL PARA O POVO